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Tesla: como acidente fatal no Texas expõe os limites (e riscos) do ‘piloto automático’

Imagine estar na sala da sua casa e um carro a quase 120 km/h te atropelar. Foi o que aconteceu com a senhora Martha Avila, de 76 anos, em Katy, no Texas (EUA). Ela morreu por conta dos ferimentos. Quem dirigia o Model 3 da Tesla era Michael Butler, de 44 anos. Mas ele alegou às autoridades que, na verdade, o que dirigia o carro era o FSD – sigla em inglês para “Full Self-Driving”, tecnologia de (quase) piloto automático da marca.

A Tesla rebateu publicamente a alegação de Butler. O vice-presidente de Inteligência Artificial (IA) da Tesla, Ashok Elluswamy, disse, numa postagem no X/Twitter, que “o motorista desativou manualmente o sistema de condução autônoma ao pisar no pedal do acelerador até o limite de 100% nesta área residencial”. 

“Eles [o motorista e o veículo] atingiram uma velocidade de 73 milhas por hora [aproximadamente 117 km/h] durante a colisão e [o motorista] manteve o acelerador pressionado mesmo após o impacto”, acrescentou Elluswamy, com base nos dados telemétricos do veículo.

Em outras palavras, a Tesla argumenta que, mesmo que o sistema de direção assistida estivesse em segundo plano, o acionamento do pedal do acelerador até o fim pelo motorista funciona como sobreposição manual compulsória (override), o que desliga os freios automáticos de emergência.

Confira abaixo um vídeo do acidente, capturado por uma câmera de segurança da casa atingida:

Nesta matéria, o Olhar Digital te explica o que é a tecnologia FSD, como ela funciona e quais são os principais pontos da polêmica em torno dela.

Full Self-Driving da Tesla significa piloto automático? Veja bem…

O FSD da Tesla, atualmente chamado de “FSD (Supervisionado)”, é um sistema avançado de assistência ao motorista projetado para controlar funções de direção e aceleração do veículo. Para começar: o FSD funciona por meio de captação (Tesla Vision). Oito câmeras espalhadas pelo veículo geram imagens em 360 graus do ambiente.

Em entrevista ao Olhar Digital, o engenheiro Gerardo Portela, especialista em riscos e segurança, disse que a ausência de outros tipos de sensores é um ponto de atenção. “Esse sistema é baseado apenas em imagens. Não usa radar nem outro tipo de detector”, frisou Portela.

“Imagens podem sofrer uma série de interferências. [O veículo da Tesla] deveria ter também, por exemplo, um sensor de radar, que, independentemente da questão óptica, consegue detectar obstáculos, assim como acontece na aviação”, observou o engenheiro.

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O FSD da Tesla é apenas “visual” – funciona por meio de captação de imagens feita por oito câmeras espalhadas pelo veículo – Imagem: Jose Gil/Shutterstock

Diferente de sistemas de navegação tradicionais que seguem regras rígidas pré-programadas, como “se houver um obstáculo, pare”, o FSD funciona por meio de uma rede neural de IA.

O software “aprende” a dirigir analisando milhões de clipes de vídeo capturados por carros da Tesla em situações reais de trânsito. E centenas de funcionários da Tesla, chamados de “rotuladores de dados”, revisam esses vídeos, segundo a Reuters. O trabalho deles é identificar comportamentos bons e ruins ao volante, como desviar de perigos ou reagir a pedestres, para ensinar a IA a tomar decisões melhores.

“O sistema FSD é polêmico por confiar demais nessa capacidade de análise de imagens.” – Gerardo Portela, engenheiro especialista em riscos e segurança, em entrevista ao Olhar Digital.

O ponto do engenheiro é o seguinte: “Ele [o sistema FSD] faz leitura de imagens. E, para isso, depende de muitos dados. Precisa ter uma comunicação de dados praticamente perfeita, com redundâncias e processadores muito rápidos para detectar as imagens capturadas pelas oito câmeras. O sistema precisa conjugar todas essas informações para decidir se acelera e se freia, por exemplo. Então, a probabilidade de algum erro acontecer é muito grande.”

‘Sistema Nível 2’

Embora o nome sugira “condução autônoma total”, o sistema é classificado como de Nível 2. Tecnicamente falando, isso significa que um carro da Tesla com FSD ativado não é um carro autônomo – isto é, que está andando na via sem motorista.

No papel, o sistema exige que o motorista humano esteja totalmente atento e monitore a estrada continuamente. E ele deve estar pronto para assumir o controle instantaneamente a qualquer momento. Se o sistema falhar ou encontrar uma situação que não sabe resolver, a responsabilidade de evitar um acidente é do humano. Geralmente, é esse o argumento da empresa quando ocorre algum acidente escandaloso com um carro da Tesla e seu sistema FSD envolvidos.

O sistema é projetado para ser facilmente “desativado” ou ignorado pela ação do motorista. Por exemplo: se o motorista girar o volante com força ou pressionar os pedais, ele assume o controle manual do carro. Eis o argumento “mas o motorista pisou no acelerador até 100%” do vice-presidente de IA da Tesla.

Atualmente, a Tesla oferece esse sistema mediante uma assinatura mensal, que fica em torno de US$ 99 (aproximadamente R$ 500) em alguns mercados. E continua sob investigação de órgãos de segurança mundo afora para garantir que os alertas aos motoristas sejam eficazes.

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Na teoria, motorista deve manter mãos no volante mesmo após ativar o sistema FSD; na prática, não é isso que costuma acontecer – Imagem: mpohodzhay/Shutterstock

“Mesmo que o motorista tenha apertado intencionalmente ou não o acelerador, se esse carro, com um sistema de automação tão robusto, tivesse um sensor de radar, ele não poderia ter parado antes da colisão?”, questionou Portela. “Seja apertando ou não o acelerador, se o carro é vendido com um sistema de automação, ele mereceria ter um alerta – por exemplo: tremer o volante e alarmes sonoros”, acrescentou o engenheiro. “Existem uma série de coisas que impedem o motorista de deliberadamente cometer um erro tão grave.”

No entanto, o especialista em riscos e segurança explicou o seguinte: “O ser humano continua sendo o mais capacitado a tomar decisões na operação de qualquer máquina – seja um carro, um avião, uma usina nuclear. O ser humano ainda tem a prioridade na tomada de decisão. A automação ajuda muito, pode até operar sozinha, mas não pode fazer nada sem confirmação do ser humano.”

Controvérsias do FSD

As controvérsias em torno do Full Self-Driving da Tesla surgem principalmente do conflito entre o que o nome promete e como o sistema realmente se comporta no mundo real.

A maior polêmica começa no próprio nome. Embora seja chamado de “Full Self-Driving”, o sistema é classificado como de Nível 2, o que significa que ele é apenas um assistente. Inclusive, reguladores europeus questionam se esse nome dá aos consumidores uma impressão enganosa das capacidades do carro.

“Dizer que ‘o motorista assumiu o controle sobre o sistema’ não é uma forma de isenção de responsabilidade. É uma descrição do tipo de falha inerente aos sistemas de Nível 2”, observou o Electrek ao repercutir o acidente fatal ocorrido no Texas. “Tanto o Autopilot quanto o FSD (Supervisionado) exigem um motorista atento, capaz de assumir o controle instantaneamente – mas são projetados para conduzir o veículo, o que condiciona as pessoas a se desconcentrarem justo no momento em que é mais difícil executar a rara manobra de emergência para retomar o controle.”

“Um motorista que está mental e fisicamente ‘fora do loop’ é mais lento e atrapalhado no meio segundo em que isso mais importa”, acrescenta o portal especializado em veículos elétricos. Segundo o site, o FSD é “bom demais” para o motorista relaxar, mas “não bom o suficiente” para ser totalmente confiável.

Fachada de casa destruída após carro da Tesla bater
Uma senhora foi atropelada na sala de casa por um carro da Tesla a quase 120 km/h – Imagem: Reprodução/Redes sociais

No caso do acidente no Texas, o motorista pode ter pisado no pedal errado – acelerador em vez de freio. E pode ter continuado com o pé no acelerador após bater na casa porque estava em choque. Porque entrou em pânico. Só que a geração de dados do veículo também está sujeita a erros.

“Qualquer equipamento pode falhar. Inclusive, a comunicação de dados. E você pode ter ali algum tipo ali de conclusão que não condiz com o que de fato aconteceu”, observou Portela. “O próprio sensor do acelerador pode dar um problema, indicar que foi apertado, mandar um sinal de que foi apertado quando, na verdade, ele não foi.”

Seja como for, uma senhora foi atropelada na sala de casa por um carro da Tesla a quase 120 km/h. Esse é o fato.

Outras marcas têm sistemas no estilo “Full Self-Driving”

A Tesla está longe de ser a única marca de veículos a ter um sistema de automação voltado para a direção. Só que enquanto a Tesla aposta numa IA que tenta imitar a visão humana, outras montadoras preferem um caminho mais conservador e “balizado” por mapas precisos e sensores extras (Lidar, por exemplo).

O Super Cruise, da Chevrolet, é frequentemente citado como um sistema robusto e previsível, no bom sentido. Ele combina câmeras e sensores de radar com mapas de alta definição digitalizados por Lidar. Ao contrário do FSD da Tesla, que tenta dirigir em qualquer rua, o Super Cruise é “geocercado”. Por isso, funciona apenas em rodovias pré-mapeadas.

Outro exemplo é o BlueCruise, da Ford. Ele se baseia em câmeras frontais e um monitoramento infravermelho dos olhos do motorista. Detalhe importante: esse sistema restringe o uso “mãos livres” a zonas chamadas “Blue Zones“. Se o motorista desviar o olhar da estrada por muito tempo, o sistema emite alertas e se desativa.

Já a Mercedes foi uma das primeiras a comercializar um sistema de Nível 3. Em situações específicas de congestionamento em rodovias (até certas velocidades), o motorista podia – legalmente falando – tirar os olhos da via. Mas a marca pausou recentemente a implementação do Nível 3 devido aos altos custos e baixa demanda. Agora, a Mercedes foca num sistema de “Nível 2++” chamado “Drive Pilot Assist”, que exige atenção constante, similar ao FSD da Tesla.

Em relação a marcas chinesas, considera-se que a XPeng é a montadora chinesa que mais se aproxima da tecnologia FSD da Tesla em termos de capacidade. E a BYD começou a promover recentemente seu sistema “God’s Eye“.

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