Reanimar um cĂ©rebro congelado parece coisa de ficção cientĂfica. Mas um estudo publicado este mĂŞs na revista Proceedings of the National Academy of Sciences aproxima esse cenário da realidade. Pesquisadores da Universidade de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha, conseguiram congelar tecido cerebral de camundongos e, dias depois, descongelá-lo com seus neurĂ´nios nĂŁo apenas vivos, mas funcionais — capazes de trocar sinais elĂ©tricos como se nada tivesse acontecido.
“Cientificamente, isso representa um avanço, passando da mera preservação da estrutura do tecido cerebral para a preservação de sua função”, afirmou Alexander German, neurologista e principal autor do estudo, ao Wall Street Journal.
O desafio do congelamento
Preservar organismos por meio do congelamento Ă© um sonho cientĂfico antigo, mas o corpo humano nĂŁo colabora. Nossos tecidos sĂŁo cheios de água, e quando a água congela, forma cristais de gelo pontiagudos que perfuram as membranas celulares e destroem estruturas delicadas — especialmente as do cĂ©rebro e do sistema nervoso.
TĂ©cnicas existentes usam substâncias quĂmicas criopreservantes para impedir a formação de cristais, mas essas substâncias sĂŁo tĂłxicas em grandes quantidades, e a eficácia para tecidos complexos como o cĂ©rebro sempre foi limitada. AtĂ© agora.

O grupo alemĂŁo desenvolveu um protocolo preciso para vitrificar o tecido — um processo que transforma a água em um estado semelhante ao vidro, sĂłlido mas sem a estrutura cristalina que causa danos. O segredo, segundo German, foi encontrar a combinação ideal de substâncias quĂmicas criopreservantes, nas concentrações certas, e aplicá-las nas temperaturas e tempos adequados.
O tecido, retirado do hipocampo de camundongos — regiĂŁo crucial para aprendizado e memĂłria —, foi entĂŁo mergulhado em nitrogĂŞnio lĂquido a -196°C e mantido em congelador a -150°C. Sete dias depois, foi descongelado. Os neurĂ´nios nĂŁo apenas sobreviveram; eles retomaram sua atividade elĂ©trica normal, como se o intervalo congelado nĂŁo tivesse passado.
A descoberta tem aplicações imediatas. AtĂ© agora, estudos com tecido cerebral humano dependiam de amostras frescas, que precisam ser usadas em horas. Com a nova tĂ©cnica, seria possĂvel criar bancos de tecido cerebral funcional, preservado por longos perĂodos, para testes de medicamentos e estudos de doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson.
“Como prova de princĂpio, isso realmente amplia os limites do que parece biologicamente possĂvel”, comentou Kirill Volynski, neurocientista da University College London, que nĂŁo participou do estudo.
O caminho ainda Ă© longo
Mas os autores são cautelosos. O experimento foi feito com fatias finas de tecido cerebral — não com um cérebro inteiro. E a escalabilidade é um desafio monumental.

“Passar de fatias finas para um cérebro inteiro exige um esforço tremendo”, disse Shigeki Watanabe, neurocientista da Universidade Johns Hopkins, que também não participou da pesquisa.
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AlĂ©m disso, a tĂ©cnica usa substâncias quĂmicas que precisariam ser introduzidas em todo o ĂłrgĂŁo de maneira uniforme, e depois removidas no descongelamento — algo que, em um cĂ©rebro humano intacto, Ă© muito mais complexo do que em uma fatia fina.
Ainda assim, o avanço Ă© considerado um marco. Por dĂ©cadas, a criopreservação de tecidos nervosos funcionais parecia fora de alcance. Agora, os cientistas sabem que Ă© possĂvel. O prĂłximo passo — e pode ser longo — Ă© fazer com que funcione em escala maior.
“A escalabilidade continua sendo a principal limitação”, resumiu Watanabe. Mas, por ora, o que se tem é um novo ponto de partida.
O post Cérebro congelado e reanimado: cientistas preservam tecido funcional pela primeira vez apareceu primeiro em Olhar Digital.
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