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Como a Petrobras usa gêmeos digitais para reduzir riscos e economizar milhões

A Petrobras afirma ter obtido mais de US$ 200 milhões em ganhos financeiros com o uso de gêmeos digitais em refinarias. Adotada pela companhia há cerca de dez anos, a tecnologia é hoje utilizada de forma transversal na cadeia de óleo e gás, com aplicações que vão de reservatórios e sistemas de produção até refinarias e projetos de engenharia.

Em entrevista ao Olhar Digital, o gerente executivo de Tecnologia da Informação e Telecomunicações da Petrobras, Cassiano Ebert, explica que os gêmeos digitais deixaram de ser apenas uma ferramenta de simulação para se tornarem parte da estratégia de transformação digital da empresa. Além de apoiar decisões operacionais e reduzir riscos, a companhia já utiliza a tecnologia para treinamento de equipes e prepara uma nova etapa dessa evolução com a integração da inteligência artificial (IA).

Ilustração mostra a representação digital de uma plataforma da Petrobras para simulação e monitoramento das operações.
Montagem divulgada pela Petrobras ilustra o conceito de gêmeo digital, tecnologia utilizada pela companhia para simular operações e apoiar a tomada de decisões – Imagem: Divulgação / Petrobras

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A Petrobras começou a investir em gêmeos digitais há cerca de dez anos, quando identificou o potencial da tecnologia para simular virtualmente operações complexas antes de executá-las no ambiente físico. Segundo Ebert, a iniciativa deixou de ser um projeto pontual e passou a integrar a estratégia de transformação digital da companhia.

A gente já tem o uso de gêmeos digitais na Petrobras como uma parte central da nossa estratégia de transformação digital. A gente pode simular operações complexas antes da gente executá-la de maneira propriamente dita no ambiente físico. Isso significa que a gente está reduzindo riscos, otimizando as decisões, antecipando falhas e trazendo mais experiência e segurança para os nossos ativos que são críticos.

Cassiano Ebert, gerente executivo de Tecnologia da Informação e Telecomunicações da Petrobras

Hoje, a Petrobras aplica gêmeos digitais em diferentes etapas da cadeia de óleo e gás. As soluções são utilizadas desde a exploração e modelagem de reservatórios até as operações de refino, além de sistemas submarinos e projetos de engenharia. Segundo o executivo, essa visão integrada permite acompanhar diferentes ativos ao longo de todo o ciclo produtivo, antecipar possíveis falhas e acelerar a tomada de decisões.

“A gente faz o uso de maneira transversal na cadeia de valor. Essa visão abrangente da cadeia de valor nos permite ter uma visão integrada dos ativos. A gente consegue aumentar a nossa capacidade de tomada de decisão e acelerar o processo decisório”, diz Ebert.

Por se tratar de uma operação de grande porte e bastante diversa, a Petrobras não trabalha com uma única solução padronizada. O nível de maturidade dos projetos varia conforme o ativo e o problema que precisa ser resolvido. “Isso acaba sendo muito tailor-made. Você tem que entender o problema, o objetivo de negócio que você precisa resolver, para a gente poder ver qual a melhor tecnologia para colocar”, explica o gerente executivo.

Plataforma P-57, da Petrobras, operando no campo de Jubarte, no Espírito Santo.
A plataforma P-57, no campo de Jubarte (ES), também integrou os projetos-piloto de gêmeos digitais da Petrobras – Imagem: Taís Peyneau/Agência Petrobras

O desenvolvimento dessas soluções também envolve uma rede de parceiros. Segundo Ebert, a Petrobras combina a atuação de equipes internas com universidades, institutos de pesquisa, empresas de tecnologia e startups. Boa parte dessa articulação ocorre por meio do Centro de Pesquisas, Desenvolvimento e Inovação (Cenpes), que coordena projetos de pesquisa e desenvolvimento com parceiros externos.

Tecnologia reduz riscos, gera ganhos milionários e ajuda a treinar equipes

Os ganhos obtidos pela Petrobras com os gêmeos digitais dependem tanto da tecnologia quanto da forma como ela é incorporada às operações. Segundo Ebert, para que as ferramentas gerem benefícios concretos, elas precisam fazer parte da rotina das equipes.

Por isso, cada projeto é acompanhado por uma estratégia de gestão da mudança voltada à adaptação dos profissionais. “A gente precisa fazer uma estratégia de gestão da mudança muito forte, porque precisa entrar na rotina, senão você acaba não tendo ganho, como qualquer outra solução de tecnologia que você vai implantar”, afirma.

Quando incorporados ao dia a dia das operações, os modelos digitais ajudam as equipes a monitorar processos, analisar cenários e tomar decisões com mais rapidez. Segundo o executivo, isso reduz o tempo necessário para analisar informações operacionais e aumenta a confiabilidade das decisões. “Você tem o gêmeo digital habilitando os times a monitorar os seus processos operacionais, com isso tendo insights e tomando as decisões de maneira mais rápida e organizada”, diz.

Os resultados dessa estratégia também aparecem nos indicadores financeiros. De acordo com Ebert, os gêmeos digitais implantados nas refinarias já geraram mais de US$ 200 milhões em ganhos financeiros. Segundo o executivo, isso é possível porque os modelos permitem identificar problemas antes que eles provoquem paradas não planejadas, reduzindo riscos e evitando perdas de produção.

“Você toma ações antecipadas e não tem uma parada não planejada da unidade. Com isso, coloca mais dinheiro no caixa da companhia, porque está produzindo mais”, explica Ebert. O gerente executivo afirma que os modelos também ajudam a otimizar processos industriais para reduzir emissões de carbono, ao mesmo tempo em que aumentam a segurança operacional e a disponibilidade dos ativos.

Os gêmeos digitais também passaram a desempenhar um papel importante na capacitação dos profissionais. A Petrobras utiliza os modelos virtuais para treinar novos empregados, atualizar profissionais que já atuam na companhia e simular situações relacionadas à segurança operacional antes que elas ocorram no ambiente real. Segundo Ebert, isso permite que as equipes cheguem às unidades mais preparadas para atuar, especialmente em situações ligadas à segurança operacional. “Quando eles chegam na planta, eles já conhecem as plantas, eles já sabem como atuar”, afirma.

Próximo passo é combinar gêmeos digitais e inteligência artificial

Com os gêmeos digitais já incorporados às operações, a Petrobras trabalha agora em uma nova etapa: integrar inteligência artificial aos modelos para ampliar sua capacidade analítica e evoluir para os chamados Smart Twins. Segundo Ebert, a diferença está na capacidade de os sistemas deixarem de apenas representar ativos e passarem também a recomendar ações com base nos dados operacionais.

“A gente entende que o próximo passo é migrar para esses Smart Twins”, afirma o executivo. “Eles conseguem analisar os dados, fazer recomendações, otimizar parâmetros e apoiar ainda mais o processo de tomada de decisão.”

Fachada da sede da Petrobras
Petrobras pretende ampliar o uso de gêmeos digitais e integrar inteligência artificial aos modelos para apoiar a tomada de decisões nas operações – Imagem: Donatas Dabravolskas / Shutterstock

A estratégia da Petrobras para os próximos anos não se limita à ampliação do uso dos gêmeos digitais nas operações industriais. Segundo Ebert, a companhia pretende expandir essas soluções com o apoio da inteligência artificial, incorporando novas capacidades analíticas e expandindo seu uso para outras áreas do negócio. A expectativa é que os modelos se tornem cada vez mais inteligentes, sem abrir mão da supervisão humana nas decisões críticas.

Mesmo com esse avanço, a Petrobras afirma que a supervisão humana continuará sendo indispensável em decisões críticas. “Quando a IA vai tomar uma decisão em um ambiente crítico, como a Petrobras, a gente ainda entende que precisa ter o ser humano ali no loop. A gente não pode colocar vidas das pessoas, o meio ambiente e a companhia em risco”, explica Ebert.

Para o executivo, a evolução da inteligência artificial não deve substituir os profissionais, mas ampliar sua capacidade de atuação. “Essas tecnologias não vão substituir as pessoas. Elas vão expandir a capacidade delas. As pessoas vão deixar de fazer atividades repetitivas e passar a atuar em funções que geram mais valor para a companhia”, conclui.

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