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Morre Craig Venter, geneticista pioneiro no sequenciamento do genoma humano

O geneticista e empresário John Craig Venter, um dos pioneiros do sequenciamento do genoma humano e figura central de uma das maiores disputas científicas do início do século XXI, morreu em 29 de abril de 2026, aos 79 anos.

Conhecido tanto por suas contribuições revolucionárias à genética quanto por seu estilo controverso e provocador, Venter ajudou a transformar a pesquisa genômica ao liderar métodos inovadores de sequenciamento de DNA.

Mudando a visão do sequenciamento do genoma humano

Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória ocorreu em fevereiro de 2001, durante a conferência internacional BioVision, em Lyon (França). Na ocasião, Venter anunciou que os seres humanos possuíam muito menos genes do que os cientistas haviam estimado durante décadas.

Segundo ele, os humanos tinham cerca de 30 mil genes — número muito inferior às previsões anteriores, que apontavam para aproximadamente 100 mil. Posteriormente, essa estimativa seria reduzida para cerca de 20 mil.

Para Venter, a descoberta demonstrava que o comportamento humano não poderia ser explicado apenas pela genética. “Simplesmente não temos genes suficientes para que essa ideia de determinismo biológico esteja correta”, afirmou na conferência. “A maravilhosa diversidade da espécie humana não está inscrita em nosso código genético. Nossos ambientes são cruciais.”

O anúncio ocorreu poucos dias antes de as revistas Nature e Science publicarem os detalhes do primeiro rascunho do genoma humano, considerado um marco histórico na biologia moderna.

O projeto havia sido conduzido por uma parceria instável entre pesquisadores financiados pelo governo dos Estados Unidos, o Centro Sanger do Wellcome Trust, no Reino Unido, e a Celera Genomics, empresa de sequenciamento fundada e financiada por Venter.

A conferência BioVision 2001 havia sido planejada justamente para coordenar a divulgação oficial dos resultados do projeto. No entanto, ao revelar antecipadamente os dados sobre a contagem de genes humanos, Venter surpreendeu jornalistas e cientistas presentes.

Questionado sobre o fato de os resultados estarem sob embargo até a semana seguinte, respondeu: “Pode ser o embargo deles, mas não foi meu.” A declaração acabou estampando manchetes de jornais em todo o mundo.

Além do trabalho científico, Venter também ficou conhecido por seu perfil empresarial agressivo e pelo gosto por autopromoção. Exibia com frequência suas conquistas, além de seu avião particular, iate e relógios extravagantes. O comportamento lhe rendeu críticas e inimigos no meio científico.

James Watson, codescobridor da estrutura em dupla hélice do DNA, chegou a compará-lo a Hitler devido às tentativas de patentear genes humanos. Outros cientistas passaram a chamá-lo de “Darth” Venter, em referência ao vilão Darth Vader, da franquia “Star Wars”.

Apesar das críticas, colegas reconheceram a importância de sua atuação. O neurocientista Sir John Hardy, do University College London (UCL), que colaborou com Venter em pesquisas sobre demência, afirmou que a rivalidade entre a Celera e os pesquisadores ligados aos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido ajudou a acelerar o avanço científico.

“Por outro lado, não há dúvida de que essa competição acelerou enormemente as coisas e terminou, na verdade, em um empate técnico”, disse Hardy.

Juventude e Guerra do Vietnã

  • Craig Venter nasceu em 14 de outubro de 1946, em Salt Lake City, no estado de Utah (EUA);
  • Era filho de Elisabeth Wisdom e John Venter, ambos veteranos do Corpo de Fuzileiros Navais estadunidense durante a Segunda Guerra Mundial;
  • Seu pai estudava contabilidade, enquanto sua mãe trabalhava no mercado imobiliário para complementar a renda da família;
  • Criado em Millbrae, na Califórnia, Venter teve desempenho acadêmico considerado fraco no ensino médio. Recebeu uma bolsa de estudos para natação na Universidade Estadual do Arizona, mas recusou a oportunidade;
  • Em sua autobiografia “A Life Decoded”, publicada em 2007, descreveu que preferiu passar o período nas praias do sul da Califórnia, envolvido em “atividades que envolviam bebida, mulheres e surfe de peito”.

A trajetória mudou com a Guerra do Vietnã. Venter ingressou na escola do Corpo Médico da Marinha dos Estados Unidos e tornou-se paramédico sênior em Da Nang, atuando na unidade de terapia intensiva do hospital naval.

“Testemunhei a morte de centenas de soldados, na maioria das vezes enquanto eu massageava seus corações – às vezes com a própria mão – ou tentava reanimá-los”, recordou. “O Vietnã me ensinaria mais do que eu jamais quis saber sobre a fragilidade da vida.”

Segundo relatos, a experiência da guerra despertou em Venter um interesse definitivo pelas ciências da vida. Após retornar do Vietnã, ingressou na Universidade da Califórnia, em San Diego, onde obteve doutorado em fisiologia e farmacologia em 1975.

Craig Venter
Criado em Millbrae, na Califórnia, Venter teve desempenho acadêmico considerado fraco no ensino médio – Imagem: Debby Wong/Shutterstock

Revolução no sequenciamento genético

Venter iniciou pesquisas em sequenciamento genético e, em 1992, cofundou o Instituto de Pesquisa Genômica, posteriormente rebatizado como Instituto J. Craig Venter, em Gaithersburg, Maryland. A instituição foi criada ao lado da bióloga Claire Fraser, que mais tarde se tornaria sua segunda esposa.

Em 1995, sua equipe conseguiu gerar a primeira sequência genômica de um organismo vivo, a bactéria Haemophilus influenzae. O feito foi alcançado por meio de uma técnica inovadora batizada por ele de sequenciamento shotgun de genoma completo.

O método consistia em fragmentar aleatoriamente o DNA, sequenciar os pedaços e depois utilizar computadores de alta capacidade para reconstruir o genoma completo. Em 1998, Venter fundou a Celera Genomics com o objetivo de aplicar a técnica ao sequenciamento do genoma humano.

A abordagem defendida por Venter contrastava diretamente com o método utilizado pelos cientistas britânicos e estadunidenses financiados com recursos públicos, que trabalhavam de maneira mais gradual e organizada, sequenciando o DNA em segmentos menores. Venter criticava abertamente o método tradicional, classificando-o como lento, caro e ineficiente.

A rivalidade entre os grupos levou a uma trégua celebrada na Casa Branca em junho de 2000, antes da publicação das sequências preliminares em fevereiro de 2001.

Posteriormente, Venter revelou que boa parte do DNA utilizado nos trabalhos da Celera vinha de suas próprias células. A revelação provocou desconforto entre cientistas, que consideraram a atitude uma quebra dos procedimentos tradicionais de seleção de doadores de DNA. “Já fui acusado disso tantas vezes que superei”, respondeu ele.

Segundo Venter, a análise do próprio DNA revelou que ele possuía metabolismo anormal de gordura e maior risco de desenvolver doença de Alzheimer. Por isso, afirmou que passou a utilizar medicamentos para controlar o colesterol e minimizar os efeitos do problema.

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Saída da Celera e novos projetos

Ainda em 2000, Venter foi afastado da presidência da Celera por Tony White, presidente da Applera, empresa proprietária da companhia.

White queria que a Celera abandonasse o foco em sequenciamento genético e passasse a priorizar o setor de descoberta de medicamentos, considerado mais lucrativo. Venter foi visto como inadequado para liderar essa nova direção.

Em sua autobiografia, relembrou o episódio, dizendo que buscou consolo em seu barco. “Busquei consolo na única coisa que sabia que poderia me animar: fui até meu barco e naveguei rumo ao mar turquesa de St. Barts… no Caribe”, escreveu.

Após deixar a empresa, utilizou sua indenização para doar US$ 100 milhões (R$ 500,3 milhões) ao Instituto J. Craig Venter. No instituto, passou a trabalhar em projetos ligados ao desenvolvimento de microrganismos produtores de energia e à síntese de genomas bacterianos.

Mais tarde, fundou outras duas empresas: a Human Longevity e a Diploid Genomics. As companhias buscavam combinar inteligência artificial (IA) com pesquisas sobre envelhecimento e sequenciamento genético para ampliar a expectativa de vida humana e aprimorar diagnósticos de doenças.

Debate sobre genes e ambiente

As afirmações feitas por Venter em Lyon sobre o peso predominante do ambiente no comportamento humano foram questionadas por diversos cientistas. Pesquisadores argumentaram que a existência de grande diversidade de características humanas não implica necessariamente a necessidade de um número elevado de genes.

Sir John Sulston, um dos líderes do projeto público de sequenciamento do genoma no Reino Unido, rebateu as conclusões de Venter. Segundo Sulston, a evolução teria desenvolvido maneiras de fazer com que os genes executassem tarefas de gerenciamento cada vez mais sofisticadas.

“À medida que subimos na escala de complexidade, estamos simplesmente aumentando a variedade e a sutileza dos genes”, afirmou Sulston ao jornal The Guardian ao final da conferência de Lyon.

Vida pessoal

Craig Venter foi casado três vezes. Em 1968, casou-se com Barbara Rae, com quem teve um filho, Christopher. O casal se divorciou em 1980. Seu casamento com Claire Fraser, iniciado em 1981, terminou em 2005.

Três anos depois, casou-se com Heather Kowalski, que havia trabalhado como sua assessora de imprensa na Celera. Além da esposa Heather e do filho Christopher, Venter deixa os irmãos Keith, Gary e Suzanne.

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