Há histórias na exploração espacial que ficaram gravadas na memória coletiva. O voo de Gagarin. O primeiro passo de Neil Armstrong na Lua. A caminhada espacial de McCandless… Mas existem outras histórias que quase nunca aparecem nos documentários, embora tenham sido fundamentais para o sucesso de algumas dessas missões e até mesmo para garantir que terminassem com astronautas voltando para casa com vida. E uma delas começa de um jeito quase inacreditável: uma mulher entrando em trabalho de parto… carregando a papelada do projeto em que estava trabalhando para continuar no hospital.
Em agosto de 1969, poucas semanas depois da Apollo 11 pousar na Lua, a engenheira Judith Love Cohen estava grávida de seu quarto filho e trabalhando em um sistema crítico para o programa Apollo. Na manhã em que começou a sentir as contrações, ela pegou suas anotações técnicas antes de sair de casa. Foi para o hospital levando os papéis do projeto. Entre uma contração e outra, revisou cálculos, analisou diagramas e finalizou o trabalho. Não o de parto… o de engenharia. Ela então ligou para seu chefe para dar a notícia: “Ei, o sistema de orientação de abortagem está pronto”. Só então nasceu o bebê. Saudável e que ainda iria orgulhar muito aquela mãe.
Judith Love Cohen nasceu em 1933, em Nova York, numa época em que a engenharia era um ambiente quase exclusivamente masculino. Mas ela não seguia muito essas “regras”. Desde muito jovem demonstrava talento para matemática e ciência. Tanto que foi pega, na quinta série, recebendo dinheiro para fazer o dever dos colegas. Mais tarde ela entrou para a faculdade de matemática, mas percebeu que gostava mesmo era de engenharia.
[ Judith Love Cohen – Foto: wikimedia.org (Imagem colorida por IA) ]
Nos anos 1950 e 60, os Estados Unidos mergulharam numa corrida espacial contra a União Soviética. Era um período em que foguetes explodiam na plataforma com frequência, computadores tinham menos capacidade que um relógio digital atual e muitos sistemas precisavam ser literalmente inventados do zero. Judith entrou nesse universo trabalhando como engenheira em projetos ligados à aviação e à exploração espacial. Mais tarde, atuaria em empresas contratadas pela NASA, desenvolvendo sistemas de orientação e controle para missões espaciais e militares.
E aqui entra a parte mais importante dessa história.
O projeto que Judith estava finalizando naquele dia no hospital estava relacionado ao Abort Guidance System, o Sistema de Orientação de Abortagem do módulo lunar Apollo. O nome parece técnico demais, mas a ideia é relativamente simples. Durante as missões Apollo, o módulo lunar possuía um sistema principal de navegação e um sistema reserva, completamente independente, pensado para situações de emergência.
Na prática, era como ter um “plano B” eletrônico caso alguma coisa desse errado perto da Lua. Porque, na exploração espacial, quando algo dá errado, costuma ser catastrófico.
Esse sistema precisava calcular posição, velocidade e trajetória da nave usando sensores, giroscópios e computadores extremamente limitados para os padrões atuais. Os computadores da Apollo trabalhavam com uma capacidade de processamento inferior a de um relógio digital de hoje em dia. Mesmo assim, precisavam navegar no espaço com precisão absurda, a centenas de milhares de quilômetros da Terra. Qualquer erro mínimo poderia significar perder completamente o caminho de volta.
E então veio a missão Apollo 13…
Lançada em abril de 1970, a Apollo 13 deveria ser o terceiro pouso tripulado na Lua. Tudo parecia relativamente normal até o momento em que um dos tanques de oxigênio explodiu no módulo de serviço. O astronauta Jack Swigert pronunciou então uma das frases mais conhecidas da história espacial: “Houston, we’ve had a problem”.
Naquele instante, a missão lunar virou uma operação desesperada de sobrevivência.
A explosão comprometeu sistemas elétricos, produção de energia e suporte à vida. Os astronautas Jim Lovell, Fred Haise e Jack Swigert precisaram abandonar o módulo de serviço e usar o módulo lunar como uma espécie de bote salva-vidas cósmico. O problema é que ele não havia sido projetado para sustentar três pessoas por tanto tempo.
Foi nesse momento que o sistema de navegação de emergência ganhou importância crítica.
Os engenheiros em Terra e os astronautas decidiram desligar o sistema de navegação principal e utilizar o que havia sido projetado por Judith meses antes, porque este precisava de menos energia para funcionar, e a energia havia se tornado um recurso extremamente escasso depois da explosão. Se não fosse o sistema reserva, seria praticamente impossível realizar as correções de trajetória que garantiram o retorno dos três astronautas em segurança.
[ Módulo de Serviço da Apollo 13 danificado pela explosão que quase encerrou a missão com uma tragédia – Créditos: NASA ]
Claro, Judith Love Cohen não salvou sozinha a Apollo 13. Seria injusto com os astronautas, centenas de técnicos e engenheiros, que se dedicaram dia e noite para evitar o desastre iminente. Mas também seria injusto ignorar o fato de que o trabalho dela fazia parte direta daquela rede de segurança que manteve os astronautas vivos.
E isso revela algo fascinante sobre a exploração espacial.
Quando pensamos nas missões Apollo, normalmente imaginamos foguetes gigantes, astronautas caminhando na Lua e salas cheias de telas piscando. Mas a conquista do espaço também foi construída por pessoas quase anônimas: engenheiros revisando diagramas madrugada adentro, matemáticos verificando trajetórias, programadores escrevendo códigos em cartões perfurados e até bebês esperando a mãe terminar uns cálculos para poder vir ao mundo.
A exploração espacial não é apenas uma história de máquinas espetaculares, mas essencialmente, a história de seres humanos que superam seus limites para resolver problemas aparentemente impossíveis, muitas vezes sob pressão absurda, conciliando trabalho, família, medo e responsabilidade.
Judith Love Cohen faleceu em 2016. Seu nome raramente aparece ao lado dos grandes ícones da corrida espacial. Mas milhões de pessoas conhecem seu filho, aquele que nasceu no dia em que ela terminou um projeto da NASA numa sala de parto. Aquele menino se tornou o músico, comediante e ator de Hollywood, Jack Black, famoso por seus papéis em Escola de Rock, King Kong e Jumanji, entre vários outros.
[ Ator Jack Black e sua mãe Judith Love Cohen – Créditos: @humansofjudaism ]
Lembrar de Judith é também uma forma de homenagear as mães de todo mundo. Os livros costumam contar apenas a história dos astronautas que aparecem diante das câmeras, e esquecem de uma multidão de técnicos e engenheiros que sustentam o avanço da ciência. Incluindo muitas mães que conciliam maternidade, trabalho, responsabilidade e dedicação em níveis quase sobre-humanos. Com seu esforço, Judith Love Cohen ajudou astronautas a voltarem vivos para casa em um dos episódios mais marcantes da exploração espacial. Mas quantas outras mães não estão por aí cuidando não apenas dos seus filhos, mas de alguma forma, garantindo anonimamente o futuro da humanidade?
O post Enquanto entrava em trabalho de parto, ela finalizava um sistema que salvaria astronautas apareceu primeiro em Olhar Digital.
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