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Fim das injeções? A batalha global por preços, patentes e a chegada dos comprimidos emagrecedores

O mercado global de medicamentos para obesidade e diabetes atravessa um período de transformação acelerada, impulsionado pela nova geração de tratamentos à base de agonistas de GLP-1.

Com projeções que apontam para um mercado de US$ 150 bilhões (R$ 737 bilhões) no início da próxima década, o setor se prepara para mudanças profundas entre 2026 e 2027, incluindo o avanço dos comprimidos em substituição às tradicionais “canetas”, o vencimento de patentes em mercados estratégicos e cortes expressivos nos preços dos medicamentos nos Estados Unidos.

O cenário é descrito pelas empresas e especialistas como o “Abismo de Patentes 2.0”, em referência ao vencimento da patente da semaglutida — princípio ativo do Ozempic e do Wegovy — em países, como Brasil, China, Índia, Turquia e Canadá.

Batalha de medicamentos

Em fevereiro, a Novo Nordisk informou que o CagriSema, seu tratamento experimental de nova geração contra a obesidade, não atingiu o principal objetivo de um estudo clínico comparativo realizado em relação à tirzepatida, medicamento da Eli Lilly comercializado sob o nome de Mounjaro.

Segundo a farmacêutica dinamarquesa, o ensaio foi desenvolvido para demonstrar que o CagriSema seria pelo menos tão eficaz quanto o tratamento rival. Em comunicado, a empresa afirmou que a meta era comprovar uma perda de peso “não inferior” à observada com a tirzepatida, mas o medicamento não alcançou esse resultado.

De acordo com os dados divulgados pela companhia, o estudo de fase final mostrou que o CagriSema promoveu redução média de 23% do peso corporal após 84 semanas de tratamento. No mesmo período, a tirzepatida registrou perda média de 25,5% do peso corporal.

Mesmo após os resultados, a Novo Nordisk afirmou que ainda busca compreender o potencial máximo de perda de peso do CagriSema. A empresa informou que estudos adicionais estão em andamento para avaliar combinações com doses mais elevadas do tratamento.

O CagriSema combina a semaglutida — substância utilizada nos medicamentos Ozempic e Wegovy — com um composto experimental chamado cagrilintida. O tratamento vinha sendo apontado como uma das principais apostas da Novo Nordisk para fortalecer sua linha de medicamentos voltados à perda de peso.

mounjaro
Testes de rival do Mounjaro falharam – Imagem: KK Stock/Shutterstock

Comprimidos desafiam domínio das canetas injetáveis

Uma das principais mudanças do setor é a migração gradual das aplicações semanais injetáveis para versões orais de alta eficácia. A principal dúvida do mercado é se os comprimidos conseguirão entregar os mesmos resultados obtidos pelas canetas.

A Novo Nordisk entende que os comprimidos “são opções de tratamento inovadoras e convenientes para sobrepeso e obesidade”. Segundo a farmacêutica, o Wegovy em comprimido de 25 mg apresentou, em ensaios clínicos de fase 3, perda média de aproximadamente 20% do peso corporal. Nas versões injetáveis atuais, como Wegovy, Ozempic e medicamentos à base de tirzepatida, os índices de perda de peso variam entre 17% e 22%.

A companhia afirma ainda que o Wegovy em comprimido foi aprovado apenas nos Estados Unidos e está disponível em 1,5 mg (dose inicial), 4 mg, 9 mg e 25 mg. No Brasil, a Novo Nordisk solicitou, em 30 de janeiro, a aprovação do medicamento de 25 mg à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e está aguardando parecer da agência regulatória.

A endocrinologista cooperada da Unimed-BH e diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Dra. Flávia Coimbra Pontes Maia, afirma que, do ponto de vista químico, não há diferença entre as formulações. “Trata-se da mesma substância, apenas com outra via de administração”, explica.

A médica ressalta, porém, que a escolha entre comprimidos e injeções dependerá da adaptação de cada paciente. “Para alguns pacientes, a canetinha pode parecer mais prática; para outros, a questão de se autoinjetar não é confortável, e eles vão preferir a medicação oral”, afirma.

Apesar da equivalência em eficácia, as fabricantes apostam em modelos diferentes de conveniência.

No caso da Novo Nordisk, as versões orais de semaglutida, como Wegovy e Rybelsus, exigem cuidados rigorosos no uso. O medicamento deve ser ingerido com estômago vazio e respeitar intervalo de 30 minutos antes de comer e beber.

Já a Eli Lilly aposta na molécula experimental orforgliprona, ainda sem nome comercial. Segundo Felipe Berigo, diretor executivo da Unidade de Cardiometabolismo da Eli Lilly no Brasil, o medicamento, já aprovado nos EUA, “pode ser tomado a qualquer momento do dia, com ou sem comida, sem necessidade de jejum ou horário fixo”.

No programa ATTAIN, conduzido com mais de 4,5 mil participantes em estudos globais — incluindo o Brasil —, a orforgliprona demonstrou perda de peso significativa e reduções em marcadores de risco cardiovascular em todas as doses avaliadas, além de apresentar um perfil de segurança consistente com a classe, afirma Berigo. “A Lilly submeteu a orforgliprona para aprovação regulatória em mais de 40 países e planeja lançar o produto em cada mercado após as aprovações locais”, diz.

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Guerra de preços nos Estados Unidos

Outra mudança significativa prevista para os próximos anos envolve o custo dos tratamentos. A Novo Nordisk anunciou que pretende reduzir em até 50% os preços de lista do Wegovy e do Ozempic nos Estados Unidos a partir de 1º de janeiro de 2027.

Sob a nova política, os medicamentos deverão custar US$ 675 (R$ 3,3 mil) por mês. Paralelamente, os produtos também passarão a integrar a nova política de preços negociados pelo programa federal Medicare, no qual Ozempic e Wegovy terão custo de US$ 274 (R$ 1,3 mil) para um suprimento de 30 dias.

  • Esses são os preços de tabela dos medicamentos nos EUA.
  • Existe uma variação grande a depender de plano de saúde.
  • O preço cheio vale, por exemplo, para aqueles que têm franquias altas ou que pagam coparticipação por medicamentos por meio de seus planos de saúde oferecidos por empregadores.
  • Aqueles com cobertura de seguro podem pagar apenas US$ 25 por mês.

Jamey Millar, vice-presidente executivo da Novo Nordisk, afirmou ao Wall Street Journal que a expectativa da empresa é ampliar o acesso aos tratamentos. “Nossa esperança é que os preços reduzidos levem a um melhor acesso e acessibilidade”, declarou.

Pessoa segurando caneta de Ozempic
Novo Nordisk garantiu diminuir preços do Wegovy e do Ozempic nos EUA – Imagem: fotogurmespb/Shutterstock

O “Abismo de Patentes 2.0” e os genéricos

Março de 2026 é apontado como um marco para o setor farmacêutico global. Nesse período, expirou a patente da semaglutida no Brasil, China, Índia, Turquia e Canadá. Esses países concentram aproximadamente 40% da população mundial e cerca de 33% das pessoas com obesidade no planeta, segundo o IQVIA.

A Novo Nordisk classifica o vencimento da patente como uma “etapa natural no ciclo de vida de qualquer inovação”.

No Brasil, embora a patente da molécula tenha expirado neste ano, a companhia afirma que a tecnologia SNAC — responsável por proteger a semaglutida no sistema digestivo e permitir a absorção do comprimido — seguirá protegida por exclusividade até 2031.

A estratégia da farmacêutica para manter presença no mercado brasileiro também inclui a parceria firmada com a Eurofarma. Em outubro de 2025, as empresas anunciaram a comercialização das marcas Poviztra para obesidade e Extensior para diabetes tipo 2.

Além disso, a Novo Nordisk prevê ampliar sua produção nacional com a expansão da fábrica de Montes Claros (MG). O investimento estimado é de R$ 6,4 bilhões, com previsão de início das operações da nova estrutura em 2028.

Para saber mais sobre esse mercado no Brasil, confira essa outra reportagem.

Novas terapias prometem preservar massa muscular

Enquanto a indústria disputa o mercado dos comprimidos, novos estudos também tentam resolver um dos principais efeitos colaterais associados ao emagrecimento acelerado: a perda de massa magra.

Um dos medicamentos em desenvolvimento é o bimagrumabe. Segundo estudo publicado na Nature Medicine, a combinação entre semaglutida e bimagrumabe resultou em perda de peso de 33%, mas com apenas 2,3% de perda de massa magra. Quando a semaglutida foi utilizada sozinha, a perda de massa magra chegou a 29%.

OMS reconhece obesidade como doença crônica

A expansão dos medicamentos para obesidade também levou organismos internacionais a revisarem suas diretrizes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou sua primeira diretriz global sobre o uso de agonistas de GLP-1, reconhecendo a obesidade como uma “doença crônica que pode ser tratada com cuidado integral e ao longo da vida”.

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, afirmou que “embora a medicação sozinha não resolva essa crise global de saúde, as terapias GLP-1 podem ajudar milhões”.

A entidade também alertou para o crescimento da circulação de “produtos falsificados e de qualidade inferior”, impulsionado pela alta demanda mundial.

No Brasil, segundo a Dra. Flávia, o termo “canetas emagrecedoras” não é bem aceito entre especialistas. Ela afirma ainda que “a obesidade é uma doença crônica e deve ser tratada como tal. Portanto, esses medicamentos são terapias para uma condição de saúde”.

Ela também destacou a desigualdade no acesso aos tratamentos. “Atualmente, não há medicamentos para obesidade disponíveis no SUS [Sistema Único de Saúde], o que reforça a necessidade de ampliar o acesso, especialmente para populações mais vulneráveis”, afirmou.

A diretora da SBEM ainda reforça a necessidade de combater o chamado “uso recreativo” desses medicamentos e priorizar pacientes com indicação clínica.

OMS
OMS publicou sua primeira diretriz global sobre o uso de agonistas de GLP-1 – Imagem: Michael Derrer Fuchs/Shutterstock

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Cronologia da evolução dos tratamentos

A trajetória desse tipo de medicamento no Brasil e no mundo seguiu uma rápida evolução nos últimos anos:

  • Década de 2010: início da popularidade das canetas injetáveis voltadas ao diabetes tipo 2 no Brasil;
  • 2015 a 2017: lançamento da liraglutida (Saxenda), primeiro medicamento aprovado especificamente para obesidade no país;
  • 2018 a 2020: chegada da semaglutida (Ozempic) para diabetes, acompanhada de forte uso off-label para emagrecimento;
  • 2023: lançamento oficial do Wegovy, versão injetável da semaglutida voltada para obesidade;
  • 2024 a 2025: ascensão do Mounjaro (tirzepatida), com perdas de peso de até 22%;
  • Outubro de 2025: Novo Nordisk e Eurofarma anunciaram parceria para comercialização das marcas Poviztra para obesidade e Extensior para diabetes tipo 2;
  • 2026: estudo publicado na Nature aponta para sucesso em testes de fase 2 do bimagrumabe;
  • 30 de janeiro de 2026: Novo Nordisk solicita à Anvisa aprovação do Wegovy em comprimido de 25 mg;
  • Março de 2026: expiração da patente da semaglutida no Brasil, China, Índia, Turquia e Canadá;
  • Abril de 2026: aprovação da orforgliprona pelo FDA, nos Estados Unidos;
  • Janeiro de 2027: entrada em vigor do corte de até 50% nos preços de lista do Wegovy e Ozempic nos Estados Unidos;
  • 2028: previsão de início das operações da fábrica expandida da Novo Nordisk em Montes Claros (MG).

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