Loading ...

O azeite mais premiado do mundo nasce a 168 km de São Paulo

Serra da Mantiqueira não estava nos planos da olivicultura mundial. Mas foi a 1.143 m de altitude, em Santo Antônio do Pinhal, no interior paulista, que um azeite brasileiro derrotou marcas italianas com mais de 100 anos de história nos maiores concursos do planeta.

O problema que o Mediterrâneo não tem

Para uma oliveira produzir frutos, ela precisa de estresse. No Mediterrâneo, esse gatilho é a seca do verão. No Brasil, não existe esse ciclo. O país parecia climaticamente inelegível para a olivicultura até pesquisadores da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) identificarem uma alternativa: o frio de altitude. A oliveira precisa de pelo menos 300 horas abaixo de 12°C para florescer. A Serra da Mantiqueira entrega isso com folga durante o inverno.

A primeira extração de azeite extravirgem do Brasil aconteceu em 29 de fevereiro de 2008, no Campo Experimental da Epamig em Maria da Fé (MG), com 40 litros produzidos de forma experimental. Eram apenas testes. Menos de duas décadas depois, a Mantiqueira reúne cerca de 200 produtores, mais de 90 marcas e uma safra projetada em 150 mil litros para 2026, segundo a própria Epamig. Santo Antônio do Pinhal está no coração dessa revolução.

Por que a altitude vira vantagem e não obstáculo?

O frio não é o único fator. A amplitude térmica elevada, típica das serras acima de 1.000 m, desacelera o metabolismo da azeitona durante a noite e concentra polifenóis e compostos aromáticos que seriam dissipados em climas mais quentes. O resultado é um azeite com acidez naturalmente baixa e densidade de aromas incomum.

Há outro dado que os produtores europeus não conseguem replicar: o frescor logístico. O azeite se degrada com o tempo após a extração. Um produto embarcado na Espanha chega ao Brasil com meses de viagem. Um azeite colhido e prensado na Mantiqueira chega às prateleiras em semanas. Ao contrário do vinho, no azeite quanto mais fresco, melhor. Produtores da região prensam as azeitonas em até quatro horas após a colheita, exigência técnica que preserva os compostos bioativos responsáveis pelo sabor e pelos benefícios à saúde

Santo Antônio do Pinhal virou referência mundial em azeite-Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

O que a Serra da Mantiqueira tem que o Mediterrâneo não pode comprar

A Mantiqueira oferece uma combinação rara: invernos com frio de altitude suficiente para induzir floração, verões úmidos que alimentam o crescimento vegetativo, solos antigos de origem granítica com boa drenagem, e uma amplitude térmica que concentra compostos nobres nos frutos. Nenhuma dessas condições foi planejada. Foram descobertas por pesquisa aplicada, testadas por décadas de trabalho da Epamig e validadas por produtores dispostos a apostar num cultivo que o Brasil nunca tinha feito em escala.

A região paulista da Mantiqueira responde por 30% a 35% de toda a produção de azeite da serra, com Santo Antônio do Pinhal como um dos municípios de maior concentração de fazendas premiadas. O resultado prático é visível nos rankings internacionais: uma região que não existia no mapa da olivicultura mundial em 2008 já desafia países com séculos de tradição.

Altitude, frio e ciência podem criar azeites que vencem marcas centenárias-(Foto: Denizelucinda/Wikimedia)

O clima como laboratório permanente

A estância climática mantém temperaturas amenas o ano todo, mas cada estação oferece uma experiência diferente. O inverno é a temporada mais procurada, com noites que podem cair a um dígito.

Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

A Mantiqueira como nova fronteira da produção de excelência

O que aconteceu na Serra da Mantiqueira desde 2008 é um caso raro de inovação agrícola construída sobre ciência aplicada, risco calculado e um terroir que a Europa não consegue replicar. Santo Antônio do Pinhal está no centro desse fenômeno: uma cidade de 7 mil habitantes que já figura nos rankings dos melhores produtos alimentares do planeta.

A próxima vez que você abrir uma garrafa de azeite, vale a pena checar a origem. O melhor do mundo pode ter nascido a 168 km de São Paulo.

O post O azeite mais premiado do mundo nasce a 168 km de São Paulo apareceu primeiro em Olhar Digital.

Powered by WPeMatico

Rolar para cima