ApĂłs acumular perdas bilionárias com veĂculos elĂ©tricos, a Ford decidiu mudar o rumo da sua estratĂ©gia. A montadora encerrou a produção da F-150 Lightning – modelo que já foi apontado como sĂmbolo da transição elĂ©trica da empresa – depois de registrar prejuĂzos que somam US$ 19,5 bilhões em investimentos atĂ© 2025. Agora, a prioridade passa a ser hĂbridos, elĂ©tricos de autonomia estendida e modelos a combustĂŁo, que ainda sustentam a maior parte da receita da companhia.
Isso nĂŁo significa, porĂ©m, que a fabricante esteja abandonando os elĂ©tricos. Pelo contrário: a aposta agora recai sobre modelos menores, mais acessĂveis e concebidos desde o inĂcio para serem lucrativos.
O projeto central dessa nova fase Ă© a chamada Plataforma Universal de VeĂculos ElĂ©tricos (UEV), que servirá de base para uma famĂlia de carros de baixo custo – começando por uma picape mĂ©dia estimada em US$ 30 mil, prevista para 2027.
O desenvolvimento da UEV está a cargo de um laboratĂłrio de projetos especiais da Ford na CalifĂłrnia, liderado por Alan Clarke, executivo com 12 anos de experiĂŞncia na Tesla. A equipe reĂşne cerca de 500 engenheiros distribuĂdos entre o Vale do SilĂcio e Los Angeles. Tudo era sigiloso atĂ© recentemente, atĂ© que Clarke abriu o jogo em reuniĂŁo com um grupo de jornalistas.
Conforme reportado pelo The Verge, a fase atual envolve garantir cadeia de suprimentos e preparar a produção em larga escala. O foco Ă© na eficiĂŞncia e acessibilidade. A lĂłgica Ă©: quanto mais eficiente o veĂculo, menor a necessidade de baterias grandes e caras, o que reduz o custo final.
Bateria no centro da equação
Segundo Clarke, o maior desafio financeiro de um carro elĂ©trico continua sendo a bateria, responsável por cerca de 40% do custo total. Em vez de esperar por avanços futuros como baterias de estado sĂłlido, a Ford optou por otimizar cada detalhe do veĂculo para extrair o máximo de autonomia de pacotes menores.
Para isso, criou um sistema interno de mĂ©tricas chamado “recompensas”. A ferramenta atribui valores monetários a decisões tĂ©cnicas que impactam peso, arrasto aerodinâmico e eficiĂŞncia. Pequenas alterações – como um milĂmetro na altura do teto ou ajustes em componentes de freio – podem resultar em economia significativa no conjunto de baterias.
A lĂłgica tambĂ©m permite que peças mais caras se justifiquem financeiramente se contribuĂrem para reduzir massa e, consequentemente, o tamanho necessário da bateria.
A montadora tambĂ©m adotará baterias de fosfato de ferro-lĂtio (LFP), mais baratas e livres de cobalto e nĂquel. O conjunto será estrutural, integrado ao chassi do veĂculo – solução já explorada por outras fabricantes e reconhecida por ganhos em eficiĂŞncia e redução de peso.
Há, tambĂ©m, a aerodinâmica. A Ford trabalhou na otimização da parte inferior do veĂculo, no fluxo de ar ao redor dos pneus e na redução de turbulĂŞncia. AtĂ© mesmo os espelhos laterais foram redesenhados, com atuador Ăşnico para ajuste e rebatimento, permitindo redução de tamanho e resistĂŞncia ao vento.
A redução de peso tambĂ©m foi prioridade. A nova picape elĂ©trica utilizará grandes peças Ăşnicas de alumĂnio fundido, substituindo dezenas de componentes estruturais tradicionais. Enquanto modelos como o Maverick utilizam mais de uma centena de peças na estrutura dianteira e traseira, o novo elĂ©trico usará apenas duas.

Nova arquitetura eletrĂ´nica
A UEV tambĂ©m estreia a arquitetura elĂ©trica zonal da Ford, que reduz o nĂşmero de unidades de controle eletrĂ´nico e chicotes de fios. O objetivo Ă© simplificar a produção, diminuir custos e tornar o sistema mais flexĂvel.
Além disso, a empresa consolidou sistemas como conversor CC-CC e carregador em um módulo compacto chamado E-Box, responsável também pela distribuição de energia e gerenciamento da bateria. O sistema poderá inclusive fornecer energia para residências em caso de apagão.
Design e aceitação do público
A futura picape terá visual mais aerodinâmico, com capĂ´ inclinado e linhas suavizadas. O objetivo Ă© equilibrar eficiĂŞncia com identidade visual atrativa. Segundo Clarke, o desafio Ă© evitar um formato excessivamente tĂ©cnico e garantir que o veĂculo desperte desejo imediato no consumidor.
A Ford reconhece que, como empresa tradicional, enfrenta desafios adicionais frente a concorrentes como a Tesla. No entanto, o projeto UEV representa uma tentativa de internalizar mais tecnologia e reduzir dependĂŞncia de fornecedores externos.
O post O plano da Ford para deslanchar no mercado de carros elétricos apareceu primeiro em Olhar Digital.
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